sexta-feira, 25 de fevereiro de 2011
domingo, 5 de setembro de 2010
Médica negocia até com traficante para resgatar pit bulls em SP
Patrícia Cancellara criou instituição para cães desta raça abandonados.
Em 10 anos, são mais de 500 cachorros de grande porte resgatados.
Marcelo Mora
Do G1 SP
Avisada por uma denunciante que prefere manter anônima, a clínica geral e socorrista Patrícia de Arruda Cancellara, de 39 anos, parte às pressas para uma favela na Zona Oeste de São Paulo. A missão dela é das mais árduas: resgatar um pit bull que está sendo agredido a pauladas depois de ter sido derrotado em uma rinha de cães.
Ao chegar ao local, depara-se com o primeiro obstáculo: é informada por moradores que a entrada dela “não é permitida por quem manda na favela”. A solução é uma só: negociar direto com o próprio traficante.
“Se eu não tivesse insistido, teriam terminado de matar o pit bull. Tive de negociar para pegá-lo. Queriam matá-lo apenas porque tinha perdido na rinha. Arrancaram os dentes dele, judiaram dele e ele era muito manso”, conta Patrícia, ainda se comovendo com a lembrança.
O relato é apenas um dos cerca de 500 casos – muitos deles impressionantes e até dramáticos – de resgates de pit bulls e de outros cães de grande porte vivenciados pela médica em dez anos de atuação em defesa dos animais. A atividade extra-profissional ganhou tal proporção em sua vida que ela decidiu criar uma instituição, a Pitcão, dedicada exclusivamente ao resgate de cachorros dessa raça.
Até cinco anos atrás, Patrícia estima que resgatava um cão, geralmente vítima de maus-tratos, a cada dois meses. Atualmente, são de 15 a 20 por mês, em média. “De dois anos para cá, os casos de abandono e maus-tratos a pit bulls aumentaram bastante. São cães queimados, esfaqueados, agredidos, mutilados, todo tipo de crueldade”, afirma a médica.
Madrinhas
No momento, ela mantém cerca de 200 cães hospedados em sete canis distintos. Ela gasta, por mês, de R$ 30 mil a R$ 35 mil, fora ração, remédios, coleiras, guias e outros apetrechos. Grande parte dessa quantia sai do seu próprio salário.
“Nossa instituição é sem fins lucrativos, é tudo feito por voluntários. Felizmente, por meio da internet, temos conseguido muitas ‘madrinhas’, que ajudam a custear o tratamento e hospedagem destes cães. Cada uma contribui com um valor por mês. Além disso, fazemos rifas, bazares e feiras para conseguir bancá-los. Para quem ajuda, fazemos toda a prestação de contas”, diz.
Para incrementar o recebimento de contribuições, a meta é transformar a instituição em uma Organização Não Governamental (ONG) ou em uma Organização da Sociedade Civil de Interesse Público (OSCIP), que basicamente é uma ONG qualificada pelo Ministério da Justiça. Com isso, as empresas poderiam descontar do Imposto de Renda as doações feitas à entidade. “O meu sonho é montar um canil da Pitcão para diminuir custos. Não tenho verba para pagar um terreno desses. Com uma OSCIP, poderia salvar mais animais”, conta.
Patrícia Cancellara não está sozinha neste trabalho. Outras três pessoas a ajudam diretamente a recolher os animais, e cinco apoiam o grupo. “Tudo passa por mim. Eu delego as funções. E tenho parcerias com policiais, advogados, táxi dogs, veterinários. A gente une esforços”, exemplifica.
Tanto esforço tem sua compensação. Dos mais de 500 cães resgatados, 200 foram doados pela médica. “O processo de doação é lento porque sou muito criteriosa, faço uma triagem muito rigorosa. Só não é possível a doação de cães mutilados ou com doenças e/ou sequelas graves. Alguns têm temperamento mais agressivo por causa de canis de fundo de quintal, que os misturam com outras raças e os atiçam para rinhas”, diz.
Fama injusta
Para a protetora, a fama de agressiva da raça é injusta. “Pit bull não é violento por natureza. Meu filho de 3 anos faz a minha pit bull de gato e sapato. É uma raça que precisa de disciplina, que não pode ser tratada como um poodle. Por isso, a pessoa que for adquirir um cão desta raça tem de se informar bem. O problema é que muitos querem exibir um cão mais agressivo e quando este não corresponde é abandonado. Na rua, o pit bull, ao ser hostilizado, vai reagir, vai se defender.”
Segundo ela, apenas 3% dos ataques registrados de cães são de pit bull. De acordo com o Centro de Controle de Zoonoses (CCZ) da Prefeitura de São Paulo, desde o começo do ano foram notificados 10.271 ataques de cães na cidade, mas nos registros não há distinção entre as raças.
A estimativa do CCZ é de que 2,5 milhões de cães sejam domiciliados na capital. O órgão só recolhe animais nas condições que se enquadrem em lei municipal: que tenham sofrido de maus-tratos; vítimas de acidentes (atropelamentos); cães agressores e invasores de locais públicos, como escolas e hospitais. A grande maioria dos animais recolhidos é vira-lata, segundo o CCZ.
“A maioria dos ataques a pessoas é de vira-latas. Mas ataque de pit bull vira notícia porque é mais destrutivo. Quando é dada a notícia de um ataque de um pit bull, aumenta o meu trabalho”, lamenta Cancellara. Para saber mais sobre o trabalho da protetora Patrícia Cancellara, basta acessar o site da Pitcão (www.pitcao.com.br).
Adotantes
Ao menos dois dos adotantes de pit bulls recuperados pela Pitcão não se arrependeram. “Adoro o meu cachorro. Vou com ele para a rua e as crianças brincam. É um bebezão”, conta o coordenador de qualidade Eduardo Luiz de Souza, de 31 anos, que adotou Hulk, um pit bull branco de 1 ano, em março deste ano.
Segundo ele, no início, o cão relutava em ir para a rua. “A Patrícia havia me dito que ele tinha sido abandonado e que foi maltratado na rua. Tive problema, porque ele era traumatizado, não queria sair de jeito nenhum”, diz. Para ele, é o “dono quem faz o cachorro”. “Dependendo de como cria, você pode ter um vira-lata violento”, ilustra.
O gerente de projetos Eduardo Rosell, de 35 anos, diz ter se surpreendido em menos de uma semana como um adotante de um pit bull. “Ouvia comentar e ficava com um pouquinho de dúvida, mas o Pluto é um molecão ainda. Ele é muito brincalhão”, revela, sobre o cão adotado.
Assim como os demais, Pluto também foi resgatado da rua depois de ter sido abandonado. “Decidi adotar porque acompanho o trabalho, a causa da Pitcão. É pouco tempo, mas não me arrependi”, conclui.
quinta-feira, 12 de agosto de 2010
Tribunal gaúcho condena um dos assassinos da cadela Preta
(http://vanguardaabolicionista.wordpress.com)

Punição para uma crueldade
A história de um massacre ganhou uma rara e exemplar punição na Justiça gaúcha. Em votação unânime, três desembargadores da 21ª Câmara Cível do Tribunal de Justiça do Estado (TJ) condenaram um dos autores do assassinato da cadela Preta – amarrada a um carro e arrastada até a morte em Pelotas, há cinco anos – a indenizar a comunidade por danos morais coletivos.
O acórdão estabelece que Alberto Conceição da Cunha Neto terá de pagar R$ 6 mil, revertidos como doação para o canil municipal pelotense.
A decisão é rara por dois motivos. O primeiro é que o trio de desembargadores votou da mesma forma, num consenso que não costuma ser usual. Com isso, não cabe recurso à sentença no TJ e, se quiser recorrer, o advogado de defesa do condenado deverá apelar ao Superior Tribunal de Justiça (STJ), em Brasília.
A segunda excepcionalidade é que o “dano moral coletivo” reconhecido na condenação é uma novidade poucas vezes vista na história do Judiciário brasileiro. O STJ costuma negar a existência de “dano moral coletivo”.
Os desembargadores gaúchos foram na contramão dessa tendência. Cunha Neto tinha sido absolvido em primeira instância, em Pelotas, pela juíza Gabriela Irigon Pereira. Na sentença, ela considerou que o jovem já havia sido punido criminalmente, em outro processo (em 2007, foi sentenciado a um ano de detenção pelo crime, em regime aberto). Além disso, o rapaz – estudante da Universidade Católica de Pelotas – foi suspenso das aulas na faculdade, se mudou de município e teve uma parente dele agredida dentro do fórum daquela cidade, por pessoas indignadas com a morte do animal.
Os desembargadores levaram ontem 20 minutos para decidir. Numa sessão assistida apenas por três estudantes de Direito, o desembargador Armínio da Rosa lembrou que a cadela foi “desintegrada” ao ser arrastada por cinco quadras, “com pessoas assistindo”.
O desembargador José Francisco Moesch afirmou que a cadela Preta era estimada em Pelotas e sua morte, “por pura diversão”, gerou incredulidade e repulsa. A posição final veio do desembargador Genaro Baroni Borges, para quem a reparação financeira ajuda a “apagar a afronta a valores muito caros da comunidade pelotense”.
O defensor de Cunha Neto, Henrique Boabaid, não compareceu à sessão e não foi localizado por Zero Hora. Os outros dois jovens que participaram do massacre não foram processados porque se dispuseram a doar R$ 5 mil, cada, ao canil municipal de Pelotas.
HUMBERTO TREZZI

- Estimada e adotada informalmente por frequentadores de um bar no centro de Pelotas, a cadela vira-latas Preta foi amarrada a um Ka e arrastada por cinco quarteirões, até a morte.
- O crime aconteceu em 9 de março de 2005. Os autores do massacre foram três jovens universitários. Eles disseram que o animal não parava de latir, admitiram que ataram o animal a um poste, mas negaram tê-lo arrastado de carro.
- O veículo pertencia a Alberto Cunha Neto, que foi condenado ontem por danos morais.
Fonte: Zero Hora, 12 de agosto de 2010
sexta-feira, 30 de julho de 2010
Liderança, depressão, ameaça de morte
Como pessoas que escolhem se dedicar a aliviar o sofrimento e a dor alheios, incluídos aí não só a dor dos que nos são semelhantes, mas também dos que não são, como os animais, por exemplo, encontram forças para continuar lutando, para se manterem otimistas, para serem felizes, para não caírem em depressão, principalmente quando o que mais vêem como resultado desse esforço são mais derrotas que vitórias?
Numa sociedade que se elegeu como a espécie mais importante do Planeta, se auto-intitulou ‘dona’ da natureza e, em nome de seu desenvolvimento costuma justificar um comportamento utilitarista e sem limites em relação aos recursos naturais e às demais espécies, também consideradas como ‘recursos’. Por outro lado, uma sociedade que admite a exploração de um pelo outro e organizou-se de tal forma que uns poucos se beneficiam da riqueza e do poder enquanto a grande maioria sofre com fome, miséria, abandono. Então, onde ambientalistas e líderes comunitários encontram forças para continuar lutando quando outros já desistiram, e até mesmo quando a maioria está contra, ou diante de ameaças de morte?
O senso comum costuma pensar que para dar é preciso ter primeiro. Para amar, precisamos ser amados primeiro. Para fazer outros felizes, precisamos ser felizes primeiro. Para ajudar os outros a ter saúde, precisamos ser saudáveis primeiro. Em outras palavras, só serão capazes de se dedicar às lutas socioambientais pessoas ricas, saudáveis, amadas e felizes? Claro que não! Em mais de duas décadas de militância convivi com parceiros e companheiros e companheiras de luta alguns idosos, outros portadores de doenças graves, ou desempregados, ou pobres, mas que sempre encontraram - e ainda encontram – dentro de si a força e a capacidade de continuar lutando por causas coletivas, como as ambientais. Sempre me intrigou o que move o espírito humano que faz as pessoas superarem condições existenciais injustas e mesmo a se superarem em capacidades e talento para se dedicar a lutas como estas?
O que faz pessoas comuns se transformarem em guerreiros incansáveis na luta pela defesa do meio ambiente, muitas vezes tirando energia da própria sobrevivência pessoal ou de sua família? O que faz essas pessoas mesmo ameaçadas de morte continuar lutando pelo direito de todos, a ponto de perderem a própria vida, assassinados, como Chico Mendes, Dionísio, no Tinguá (RJ), Paulo Vinhas, no Espírito Santo, e tantos outros mártires da causa ambiental no Brasil? O que faz uma pessoa como o Francelmo atear fogo no próprio corpo, em praça pública, numa tentativa de proteger o Pantanal ameaçado por usineiros de álcool e outros projetos predatórios? Francisco Anselmo Gomes de Barros imolou-se com fogo em 12/11/2005, aos 65 anos, em Campo Grande (MS), durante ato público contra a instalação de usinas de álcool na região do Pantanal. Era presidente da Fundação para Conservação da Natureza de Mato Grosso do Sul (Fuconams).
Também conheci outros heróis que tombaram nessa guerra pela defesa do meio ambiente. Em abril de 1993, em Vitória (ES) foi morto com quatro tiros o biólogo e ambientalista Paulo Vinhas, que lutava contra empresas que exploravam areia de forma desordenada na região de Barra do Jucu, em Vila Velha (ES), no mesmo dia em que a prefeitura flagrou os irmãos Queiroz retirando areia da área embargada, depois de denúncia do ambientalista. O empresário Aílton Barbosa Queiroz foi condenado a 16 anos de prisão, em Guarapari (ES) pelo crime.
Seu Edu, foi espancado até a morte nas ruas de Itaipuaçu, em Maricá (RJ), em 1993, por que combatia o roubo de areia nas praias da região. As denúncias feitas por Seu Edu acusavam a formação de uma cratera pela extração de areia da Praia de Itaipuaçu. Apontava também diversos loteamentos irregulares em áreas da Mata Atlântica. Até hoje sua morte não foi esclarecida.
Fernando, da ONG Univerde, de São Gonçalo, que fundei em 1982, foi apedrejado até a morte no Terminal Norte de Niterói, em 1998. Ele denunciava invasões de manguezais na Baía de Guanabara.
Álvaro Marques (RJ) assassinado aos 69 anos, em plena luz do dia, no centro Angra dos Reis, no dia 23/01/1999. Era presidente da SERENA – Sociedade Ecológica Para a Recuperação da Natureza e na ocasião estava denunciando agressões ao manguezal de Mambucaba.

Fomos à Angra dos Reis (RJ), em companhia dos ambientalistas Rogério Rocco e André Luz (de barba) para colocar flores no local onde ocorreu o assassinato do Dr. Álvaro e pressionar as autoridades a localizarem e prenderem os assassinos, que segundo fomos informados, ainda estavam na cidade!
Dionísio Júlio Ribeiro (RJ) – Assassinado em 22/02/2005 em Nova Iguaçu, na Baixada Fluminense, por vingança de um caçador denunciado por ele. Era um defensor da Reserva Biológica do Tinguá.
Ao se colocarem na contramão de um modelo predatório de desenvolvimento, automaticamente se confrontaram com a ambição e a cobiça de pessoas e organizações que se sentirão prejudicadas em suas intenções de se apropriar dos recursos naturais ou de usar o meio ambiente como uma lixeira para seus restos. Ao escolheremos ser o que são e agir como agem, sabem que irão colher ônus e bônus por estas escolhas.
A resposta seria o amor? Seriam estas pessoas que amam demais, a ponto de entregarem seu talento, seu tempo e até mesmo sua vida pelo outro em sua acepção mais ampla, a ponto de incluir não só nosso semelhante, mas as plantas, os animais, o planeta inteiro? Existem pessoas incapazes de amar, de serem solidárias com o outro, que vêem apenas a si próprias e aos seus interesses? Creio que é no espírito humano que vamos encontrar as verdadeiras causas – e as soluções - para nossos problemas, pois a destruição e poluição ambiental são efeitos de um estilo de vida egoísta, ganancioso, indiferente com a dor e o sofrimento alheios.



